7.9.06

fios de meus tecidos

Ontem, busquei teus olhos... mas, não os reconheci.
Senti-me desconfortavelmente estranho.
Aqueles olhos desconhecidos, estrangeiros...
A bem da verdade, ouvi-me com atenção,
Quase não te reconheço mais.
Fugiram-se os gestos de atenção, a paciência com meus arroubos de poeta.
Exilaram-se as surpresas e os cuidados.
Ficou uma fé inabalável de que gestos impensados são sempre perdoados.
De fato, continuo relevando os gestos.
Mas, as palavras... ah, as palavras...
São fios que me prendem à vida.
Por misericórdia, não os desate.
E se o tempo os fizer frágeis, permaneceis silente.
Ao menos, terei tempo de vislumbrá-los mais algumas vezes...
Eu: a marionete do (des) dizer.

29.4.06

o nome da rosa...

Quando Deus o criou, em época de contenção, deu-lhe um velho coração medieval, que repousava esquecido por detrás da cristaleira onde São Miguel zeloso escondia seu escudo reluzente.
Pobre criatura: fadada a suspirar por outonos de outrora, por trovas e alaúdes, por cantigas destiladas em festas do paço.
Ora... Deus esquecido de si e do que dizia: que é loucura vinho novo em odres velhos?

Velho coração, jogue por terra sua armadura que as batalhas já vão ao longe. Acomode-se em sua rede e apenas sonhe. Sonhe seus sonhos medievais sem tocá-los. E apenas repouse imóvel por entre seus castelos e princesas feitos a giz de cera e papel cartão.

Ouvindo "Ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dionísio" e deixando que Zeca Baleiro e Hilda Hilst visitem meus aposentos.

22.4.06

sempre há motivo...

Naquele dia, o palhaço se esqueceu da maquiagem.
E, em pleno picadeiro, lá estava ele: tristemente ele. E só.
Sem risos, sem aplausos, sem marmelada, sim senhor.
Sentiu-se nu.
Nu de uma nudez que não se cobre com folhas de parreira.
Sentiu-se nu e só.

Naquela noite, dormiu abraçado às tintas que normalmente lhe cobriam o rosto.
Ao menos nu não se sentiria mais.
E só.


Este é um novo blog.
Necessário blog.
Porque nem sempre meu rosto aceita guache.
Acomodem-se: o espetáculo não pode parar.